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SBR 2013 - Discurso Posse da Nova Academica

Excelentíssimo Presidente da Academia Brasileira de Reumatologia, Professor João Francisco Marques Neto, Senhores Acadêmicos, Senhoras Acadêmicas, Ilustres Autoridades e Convidados, Queridos Amigos e Familiares.

Academia: sentimentos e representação

Encanto e emoção extravasam em mim o prazer de compartilhar com colegas e amigos, dessa casa do saber, a Academia Brasileira de Reumatologia. Tudo aconteceu por acaso ou por alguma razão, fruto da complexidade das muitas redes espirituais, sociais e profissionais, que se cruzaram, e me determinaram surpresas para trilhar esse novo caminho. E o momento é oportuno, pois estive recolhida para atender ao ritual atribulado das múltiplas funções como médica, esposa, mãe e mulher. Realmente estive inocente nesse processo, o que me torna mais humilde para agradecer a todos pela oportunidade de conviver com esse grupo seleto de pensadores e cientistas e poder participar de construções em equipe. Nessa dinâmica o sistema é mais completo, mais alegre, mais eficaz.

Parabenizo de imediato a todos dessa Academia por cultivarem o respeito pela construção do conhecimento. Considero um marco na minha vida por permitir dar continuidade a diferentes interesses intelectuais e de amizades pessoais, desta vez, com maior intensidade, porque deixo de estar sozinha para dividir, somar e multiplicar.

Vejo a academia, tradicionalmente desde a época de Platão, como as mais densas concentrações de conhecimentos teóricos, práticos e inovadores. Esta se engrandece quando consegue eliminar as barreiras institucionais e artificiais do poder. Sua sobrevivência requer o cultivo constante do espírito voluntário e enérgico, que se mantenha independente, mas que possa se inserir na realidade mercadológica, superando omissões e preconceitos, mas objetivando uma motivação maior para alcançar o conhecimento que possa ser o melhor daquele momento. Para tal, existe a consciência do respeito às liberdades de expressão e de valorizar cada contribuição, seja de um fragmento especializado ou de estudos multi, inter, e transdisciplinares. Vale a vontade e o prazer em aprender a se familiarizar com as diferenças, com o exercício de contextualizar, interagindo razões e emoções, quantidades e qualidades, desfazendo fronteiras pela harmonia de um todo processual, feliz e soberano.  

Lembro Hipócrates quando argumentou: “a vida é breve, a arte é longa, a oportunidade é fugidia, a experimentação é perigosa e o julgamento é difícil”.

 Agradecimentos     

 Fico feliz pela generosidade do acolhimento dos muitos amigos aqui presentes que me cativaram ao longo desses anos e perdoe-me não poder nomeá-los na íntegra desse momento. Que me permitam elogiá-los na representação da figura ímpar, seu Presidente, o Professor Dr. João Francisco. Posso expressar meu prazer em admira-lo, porque ele nos permite aprender com simplicidade e doçura, pela sua sensibilidade e riqueza espiritual e em apreciar seus valores intelectuais, sejam científicos na construção da ciência médica, sejam pela sua criatividade literária.

A Cadeira de número 29, para a qual fui escolhida, esteve representada por dois ilustres colegas, o patrono, o Professor Jacob Gamarski e o titular Professor Flamarion Gomes Dutra. Em suas homenagens quero celebrar as sábias palavras de João Guimarães Rosa: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Patrono Professor Jacob Gamarski

A trajetória do Professor Jacob é revestida de diferentes cruzamentos: nasceu em 1927 e veio com a família da Lituânia para o Rio de Janeiro, onde estudou e iniciou suas atuações médicas como profissional, professor e administrador. Embora tenha perdido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, pude resgatar boas lembranças da sua história através da leitura do livro: Precursores e Pioneiros, escrito pelo Dr Geraldo Wilson da Silveira Gonçalves. Nesse, há destaque do seu espírito carioca, com as características do saber fazer, saber dizer e saber viver. Iniciou seus trabalhos com o imortal Professor Jacques Houli em diferentes vertentes como participando da fundação da Sociedade de Reumatologia do Estado da Guanabara, depois Rio de Janeiro, na função de bibliotecário. Mas pela sua coragem e motivação de desbravar, atuou em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará, para finalmente, em 1960, atingir o universo reumatológico do cerrado brasileiro em Goiânia, onde viveu até 1985, quando descansou. Ensinou na Universidade Federal de Goiás e participou da fundação dessa Regional da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Destacou-se pela apresentação de trabalhos como o uso intra-articular de hidrocortisona, além da escrita de livros, alguns com exemplares personalizados.

Aqueles que conheceram o Professor Jacob vibraram pelo colega que já descansara, quando da volta da Lituânia como país livre e soberano, pela certeza da democracia na qual ele apostaria.

Titular Professor Flamarion Gomes Dutra

Nascido em Minas Gerais no ano de 1945, estudou no Rio de Janeiro e teve também a oportunidade de frequentar o Serviço do Professor Jacques Houli, ensinando e atuando em sua Clínica Privada.  Na Faculdade de Medicina Souza Marques foi Professor Assistente, da qual era titular o querido e saudoso Luiz Verztman, com o qual teve oportunidade de colaborar pela atualização de artigos sobre artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico.

Exerceu intensa atividade associativa na Sociedade de Reumatologia do Rio de Janeiro, como presidente de 1992-1994. Flamarion, com quem tive a felicidade de conviver, despediu-se no dia 7 de janeiro desse ano e foi intensamente homenageado pelo corpo clínico e funcionários do Hospital São Francisco da Penitência, onde atuou nos últimos 40 anos.

Minha trajetória

Quanto a mim, lembro-me que aos dois anos quis ingressar numa escola em Santo Amaro da Purificação para acompanhar minha irmã mais velha. Hoje percebo que essas chances aconteceram graças à iluminação de uma mãe que aos 91 anos de idade, passa os dias entre cursos e atividades físicas. Nos anos 60, essa mãe Rosalva tirou carteira de motorista para levar as 4 filhas, Riane, Rejane, Rivane e Rosane para a escola e para estudos de inglês, francês, música, ballet e bandeirantes, enquanto meu pai, Wilson, viajava para inspecionar os Bancos do Brasil. Desse desabrochar do gênero mulher, ainda tímido para a sociedade daquela época, participa a tia Maria Berila, médica, 88 anos, que continua em sua plenitude de vida.

 Iniciei meus estudos de piano aos 4 anos de idade tendo me formado aos 16 pela Escola de Música da Bahia. Após receber o diploma de professora de música fui dominada pelos estudos da medicina. Em algumas poucas oportunidades voltei a estudar o piano e tive a grata satisfação de improvisar na Estação Da Luz a Ária da quarta corda de Bach e de ter esse momento registrado por uma turista belga. Também participei de uma banda de rock de médicos que se apresentou no teatro do Floripa Music Hall.

De volta à minha infância, em Salvador ingressei no Colégio de Aplicação o que me facilitou a percepção das ciências humanas e políticas. Mas, apesar da diversidade e da riqueza mística, religiosa, da arte e da música na Bahia, resisti a esses ensinamentos porque adotava o lema de ter que ver para crer, sentimento que se aguçou pelo modelo cartesiano do curso de medicina na Universidade Federal da Bahia, focado em assuntos biológicos e orgânicos. Posso dizer que era literalmente positivista e o verdadeiro seria o que pudesse ser provado cientificamente. Durante a Residência Médica no Hospital dos Servidores do Rio de Janeiro, num vacilo da ciência em razão do subjetivo conheci meu marido, Valter Rótolo Araujo, médico intensivista, infectologista e professor. Nessa época, graças ao fenomenal e cativante Professor Luiz Verztman fui atraída para a especialidade da reumatologia.

Atuei como médica clínica e reumatologista em diferentes hospitais em Floripa, inclusive em hospital pediátrico e como professora da Unisul, a Universidade do Sul de Santa Catarina.  Estive sempre participante da nossa Sociedade Catarinense de Reumatologia e em 1994-1995, exerci sua presidência. Atualmente pratico a medicina privada e busco novas construções e práticas sobre saúde, que possam ser inseridas num contexto mais amplo da integração harmônica entre o pensar do médico, do paciente e de todos os sistemas como os educacionais, profissionais, socioeconômicos e ambientais. 

Durante essas turbulências nasceram 3 filhos que seguem caminhos próprios e que dão continuidade ao meu pensar. Todos sabem que existe a epistemologia, que se norteia entre realidades e construções.  O Luiz Guilherme, 33 anos, após boa temporada nos EEUU, trabalha como empresário nos ramos de seguros e eventos. A Manuela com 30, advogada, Mestre em Propriedade Intelectual mora em Genebra e serve à Organização das Nações Unidas (ONU). O Leonardo, 24 anos é médico, trabalha e faz pós-graduação em Medicina da Família, além de enfrentar a árdua realidade para conseguir vaga para residência médica.

Continuei restrita aos estudos da medicina como ciência exata, mesmo quando fellow na Universidade da Virgínia. Felizmente aquele reduto é propício para se improvisar ideias de pesquisas que me permitiram receber premiação do American College of Physisician e depois apresenta-las no encontro nacional do American College of Rheumatology (ACR, em Boston, 1990).

O observar junto à experiência com seres humanos permitiu-me perceber que existe uma realidade simultânea, invisível, qualitativa, mas de difícil entendimento para o século XX dominado por pensamentos especializados; mas é bela e atraente. Nossa responsabilidade é de não omiti-la, mas buscar outros modelos de pesquisa para evidencia-la, além dos tradicionais modelos científicos da medicina baseada em evidências. Foi durante o mestrado em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina que se deu o clique quando despertei para a Epistemologia, para entender que a construção do conhecimento dita e segue os modelos determinantes e determinados pelos momentos sociohistóricos. E que ainda somos fragmentados como especialistas, focados em padronizações e classificações, o que torna difícil conseguir efetivar mudanças, ou melhor, transformações conceituais. Ao invés de se enfrentar o desafio, omiti-se o resto, como apenas resto.

E os muitos pacientes que sofrem com sintomas subjetivos como dor, depressão, fadiga, insônia, como na Fibromialgia, uma das Síndromes Sensitivas Centrais? Como lidar com eles? Como inserir a medicina num contexto maior biopsicosocioambiental? Logo me preocupei em traduzir folhetos autorizados da Artrhitis Foundation para dar chance aos pacientes também opinarem sobre seus problemas.

Precisamos sim agradecer aos ensinamentos dos nossos pacientes, o que faço na figura da Tati. Vida humilde e vinda do interior do estado conseguiu publicar no início da sua adolescência o livro “Minha Luta Continua”.  Escolheu com o título Surpresa o capítulo para homenagear sua médica Tia RÊ, desafiando sua doença que se iniciou aos 11 anos de idade, terminando com os dizeres: Lúpus!!!  Me aguarde!!! E este, continua aguardando-a porque ela está bem, concluiu curso universitário e vive uma vida intensa trabalhando diariamente. São aprendizados que nos despertam a valorizar a história e a historicidade de cada paciente.

Relevo a abertura do ACR para a diversidade do conhecer ao aceitar em 2004 um trabalho qualitativo que destacou a aplicação de categorias epistemológicas para construções mais elaboradas que integrem a dinâmica das partes, do todo que pensa, que se submete, que sofre, que reage pelo corpo e que é complexo.  Em 2006 recebi também do ACR, menção honrosa relativa a slide que foi selecionado para compor seu arquivo.

Bem, essas vivências nos permitem perceber a construção de diferentes estilos de pensar e que os paradigmas sobre a ciência médica precisam ser avaliados segundo a realidade das doenças em seus modelos orgânicos biomédicos, porém também entrelaçados à realidade da saúde e da medicina como ciência humana em suas influências psicossociais, políticas e econômicas. 

Volto a nos perguntar até onde conseguimos perceber e atender aos princípios de Hipócrates:  ”Um grande feito na Arte é a capacidade de observar. Observe tudo...Combine o contraditório. Estude o paciente mais do que a doença, seus hábitos, mesmo seu silêncio...se ele sofre da perda de sono....o conteúdo e a origem de seus sonhos....Avalie  honestamente. Assista a natureza. Para as doenças, tenha o hábito de ajudar ou, pelo menos, não causar danos”.

Desafios para transformações

As Academias apresentam peculiaridades especiais por receberem um grupo seleto de pensadores intelectuais e nesse aspecto a nossa se reveste de importância fundamental. Vale destacar que além de integrar professores com formação científica, se acresce porque esses demonstram que se nutrem de outros conhecimentos e práticas educacionais, socioeconômicas e políticas que possam exigir posicionamentos críticos sobre quaisquer problemas.

É dessa complexidade que tenho grande interesse e por isso gosto de lembrar que mesmo antes de Cristo já se percebia que vivemos num tênue emaranhado em que tudo pode ter relação com tudo, mesmo as coisas mais distantes. E é desse modo que nossa Academia pode interagir e inserir diferentes estilos de ver, praticar e construir, pois felizmente esse é o caminho atual da construção do conhecimento científico que desperta para a visão integrada do todo, respeitando a afirmativa de Aristóteles em que o todo é maior do que a soma das suas partes.

A trajetória é árdua porque precisamos de muito mais além de entender processos, mas de saber sistematiza-los para poder inovar conhecimentos e práticas médicas. Podemos iniciar ao menos expressando indignação com sofrimentos, desperdícios e violências, mesmo quando sabemos das grandes dificuldades para evitá-los.

Hoje inverti a ordem e me permito antes acreditar para conseguir ver e com isso enriqueci minha vida espiritual e percebi que a medicina científica não necessariamente se desfaz quando ela também é encarada como ciência humana, mas pelo contrário ela se amplia e se energiza pela fé.

Como admiradora de Epicuro, relembro seus estudos filosóficos nos jardins. Para ele, o objetivo do homem e dos animais era o de atingir a felicidade, estado que podia ser alcançado pela aponia, (ausência de dor física) e pela ataraxia , (ausência de perturbações da alma). Na sua época, resistiu às fortes dores por cálculos renais, pois para ele as dores físicas não eram duradouras e poderiam ser suportadas com as lembranças dos bons momentos vividos. Procurava tranquilizar as pessoas quanto ao medo por tormentos futuros com relação aos deuses ou após a morte.  Lembrava que os deuses viviam em perfeita harmonia, desfrutando da felicidade divina e que depois de mortos, como não estaríamos mais de posse de nossos sentidos, seria impossível sentir alguma coisa e então não haveria nada a temer. 

Muito mais que mudanças, há necessidade de nos adequarmos às transformações epistemológicas que desafiam a todos. Na medicina há que se contextualizar, se personalizar, porque a complexidade é real, se acresce pelo adoecimento social e depende da interação entre diferentes sistemas. Frente ao desafio de se entender e tratar os sintomas subjetivos da Síndrome da Fibromialgia e das Sensitivas Centrais, aliados aos fenômenos antropológicos do gênero feminino, há que se inovar sistemas congruentes e melhor articulados entre os estilos de pensar dos pacientes, dos médicos e dos sistemas trabalhistas e periciais. Esses, como acontecem em países mais adiantados e menos violentos, conseguiram o desenvolvimento individual da responsabilidade social por conviver com maiores índices de satisfação e com sistemas melhor organizados pelas aptidões, instruídos pelo prazer em aprender, ensinar, gostar de trabalhar, de se readaptar e de poder se transformar.  

O século XXI, em sua instabilidade e em busca de definição, me motiva, mas me estressa.  A calma pode vir porque não me sinto só, tenho vocês amigos acadêmicos para me ajudarem. Almejo que possamos compartilhar nossas diferenças e utiliza-las como fator de crescimento intelectual e afetivo, mantendo congruência em nossas comunicações pela felicidade do convívio familiar. Esperando que a luz ilumine a todos que aqui estão para fazermos um bom dia e um futuro especial para a Academia Brasileira de Reumatologia.

Finalizo, lembrando Carl Rogers que diz que a vida rígida e estática não atrai mais. Precisamos tentar viver a dinâmica da vida como um processo, como um fluxo de energia, como uma transformação. E valorizando a harmonia da linguagem musical como maior e universal, despeço-me na representação da simplicidade do canto de Gonzaguinha, convidando-os para aprendermos a viver e não termos a vergonha de sermos felizes, cantar e cantar e cantar, a beleza de sermos eternos aprendizes.

                                                               MUITO OBRIGADA!!!

                                               Recife, novembro de 2013.

                               Rejane Leal Conceição da Costa Araujo,

Fonte:

 

 

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